Norte  Separação  Almíscar Súplica
Delírio  Mistério Corsário Vigília
Legado Descoberta  Fruto Proibido Infância
Alerta  Ímpeto  Passageiro Noturno
  

 

NORTE

(Flávio Villa-Lobos)

Minha fome é outra.
Não aquela que abre um buraco negro
no estômago
- vazio invisível,
que da boca algum alimento
lácteo - via esôfago -
cessa prontamente
até a próxima angústia.
 
 
Minha fome é outra.
Não um simples estar-no-mundo,
como disse Drummond
- o universo para mim
é pouco.
Minha fome salta como louca,
labareda intrépida
num incêndio grandioso.
 
 
Ela me devorará
ainda que eu entregue os pontos;
a eternidade é uma tosca
linha de partida
no horizonte, a cegar-me o olho.
 
 
Sim, minha fome é outra
- indigesta, não toca
as iguarias da estalagem.
Não tem nome,
nem forma, nem nada.
Apenas remove
montanhas, ajudando-me a vencer
o caminho penoso
sem jamais perder de vista
a paisagem.

 

SEPARAÇÃO

(Flávio Villa-Lobos)

Que estranho sentimento é este
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?
 
 
A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.

 

DELÍRIO

(Flávio Villa-Lobos)

Na penumbra,
uma indefinível alegoria
salta na trêmula paisagem
e principia uma estranha
dança noturna.
 
 
Passos silenciosos
movem-se elásticos
em meio à névoa úmida
- vôos espetaculares
sem música.
 
 
Gestos grandiosos,
o corpo envolto em mímica
revela o deslumbramento
solitário e, ao mesmo tempo,
mágico e absoluto.
 
 
Instante dúbio,
encontro de almas gêmeas,
o toque ímpar no extraordinário...
Fuga da realidade
em pleno sol da meia-noite.

 

MISTÉRIO

(Flávio Villa-Lobos)

Uma só palavra tua
e o viver monótono
que me acompanha
ganhará as cores do arco-íris,
subirá as montanhas
do Nepal,
atravessará
a Cordilheira dos Andes,
cruzará o Canal da Mancha
e se perderá
no Triângulo das Bermudas.
 
 
Uma só palavra tua
e meus sentidos irão explorar
a Floresta Amazônica,
fotografar
o olho do furacão americano,
visualizar preces no Monte Sinai,
conferir a Muralha da China,
admirar as quedas do Niágara,
visitar as águas da romântica Veneza
e alcançar
as neves do Kilimanjaro.
 
 
Uma só palavra tua
e o muro de Berlim que me rodeia
cairá por terra,
libertando-me das garras
do inferno de Java,
abrirá minhas asas para o vôo de Ícaro
e, queimando meus temores,
fará pousar meus amores
na clareira recém-aberta, desenhada
pelo teu eterno sorriso
de Mona Lisa.

 

LEGADO

(Flávio Villa-Lobos)

Velejo por entre correntes marítimas
que o navio do destino
faz balançar,
arrastando em torvelinho
meu sonho, rumo às águas profundas
do imensurável mar.
 
 
As ondas eram pequenas
- pequeno era meu desejo de amar.
Quando venci a timidez,
já era tarde, tarde demais:
as ondas viraram vagas, vagalhões
e afundaram
meu barco de papel.
 
 
As estrelas da anunciação
- que brilhavam como sóis
no mapa do céu -
apagaram-se todas.
Levaram com elas
o caminho do sonho acalentado
- inútil saber se sobreviveu.
 
 
Restou a figura do vento bravo
ventania carregando ao léu
minhas lágrimas velozes,
deixando-me apenas um olhar vago,
eternamente escravo
do que não aconteceu.

 

DESCOBERTA

(Flávio Villa-Lobos)

Avisaram-me desde logo do risco
a que estaria exposto,
se eu fosse atingido em pleno rosto
pelo olhar certeiro
de um anjo caído na Terra,
que se afastou de sua rota original
devido ao imprevisto de haver
descoberto
- num rasgo de assombro -
ser possuidor
de um sentimento humano,
que não se sabe bem ao certo,
apresenta como único sintoma
sinais de intensa felicidade,
acompanhado de tremores
de paixão e, pasmem,
a característica de voar
sem tirar os pés do chão.
 
 
O olhar certeiro
encontrou-me distraído,
saindo de casa.
 
 
Quando dei por mim,
olhei para trás, sorrindo,
procurando minhas asas...

 

ALERTA

(Flávio Villa-Lobos)

Amortecidos pela rotina diária da vida,
meus cinco sentidos relaxam a prontidão.
Perdem vagarosamente a noção do perigo,
que aparece sempre de forma repentina.
 
 
De que me vale o intenso preparo,
o arsenal de armas sofisticadas,
as táticas de guerra planejadas,
se eu não estiver, de modo claro,
 
 
atento às mudanças do vento,
ao vôo rasante das águias,
a alternância das marés,
ao som das tropas inimigas em movimento?
 
 
Eu preciso resgatar a vigilância máxima,
o total envolvimento físico na batalha
que se avizinha breve, mágica.
Em vão construirei trincheiras rasas
 
 
incapazes de conter um ataque sorrateiro:
teus olhos negros, surgindo na calada
da noite, mísseis teleguiados,
atingindo em cheio meu coração indefeso.

 

ÍMPETO

(Flávio Villa-Lobos)

Traga-me a lua prateada.
Hoje, o intrépido arrepio
alcançará sua plenitude.
Interromperá, magnânimo,
sobressaltos, desvarios.
 
 
Muitos anos em silêncio.
Anos solitários, dementes.
 
 
Revigorará então candidamente
íntimas carícias apaixonantes,
até sucumbir completamente.

 

ALMÍSCAR

(Flávio Villa-Lobos)

Vento alvissareiro,
agita meus cabelos
e me faz recontar a noite:
teu vulto espero.
 
 
Um estalo seco
- chicote das horas -
sangra fundo
o tempo da espera.
Açoite profundo
que não estanca a falsa
quietude
dos lábios tesos.
 
 
Passos ecoam
no caminho aberto
pelo medo.
 
 
Sábio, o coração desenha
sozinho
a saída do novelo
- emaranhado traiçoeiro,
construído e arquitetado
pelo frágil espelho.
 
 
Brisa na folhagem,
percebo tua miragem
esgueirar-se furtivamente
nas sombras.
Essência de almíscar selvagem
no ar
- tuas formas
querem-me surpreso.
 
 
Te pressinto.
O bálsamo que te banha
o ventre
adivinha-me o segredo.
 

 

CORSÁRIO

(Flávio Villa-Lobos)

Ainda que me ceguem os olhos
seguirei imaginando-te sempre.
 
 
Talvez me prendam
na cela dos rancores
- aquela que emudece
o amanhã.
Com pincéis imaginários
na tela da memória
pintarei teu rosto claro
como a estrela da manhã.
 
 
No navio do exílio
em breve estarei,
quem sabe condenado
pela afronta de querer-te,
querer-te mais
que o próprio rei.
 
 
Virá em meu auxílio
- tenho certeza -
o encanto
que já nasceu quedado
a acompanhar-me
feito guardião,
para afastar de mim
o perigo dos sete mares.
 
 
Sobreviverei incólume,
até inflar o peito
com aromas de perplexidade,
por saber-te vagando ainda
dentro do meu pensamento
entre correntes
que não prendem meus ares
de temível apaixonado.
 
 
Saltarei à frente do motim
para incendiar
o navio-prisão
e abrir as portas
da liberdade.
 
 
Voltarei para perpetrar
o destino clássico
dos aventureiros:
saquear o reino dos tiranos,
apoderando-se da jóia
mais valiosa...
teu coração clamando
pelo amor de tantos anos
guardados no âmago
das tempestades.

 

FRUTO PROIBIDO

(Flávio Villa-Lobos)

As horas passam vertiginosamente
rumo à volúpia insaciável, louca,
sempre atenta e presente
em nossos mágicos momentos.
 
 
Os minutos fogem rápidos
por entre cúmplices dedos,
mãos entrelaçadas...
aliança viva que trata nosso medo
com absoluto desdém.
 
 
Em vão, tento agarrar uma fresta
desse momento,
para antecipar
as horas de festa,
que sei,
virão sigilosas
e também esparsas,
como se fosse possível
viver e desviver
uma paixão...
fazendo-a escorrer
por entre pequeninos grãos,
de forma sutil,
insuspeita,
empurrada pelos ventos que sopram
aflitos
dentro do vidro intocável,
por onde deslizam
impunemente
as areias do tempo.

 

PASSAGEIRO NOTURNO

(Flávio Villa-Lobos)

Voa sem limites
- nem tampouco exibindo
o menor sinal
de constrangimento -
abruptamente solto,
travesso e natural
meu eterno pensamento.
 
 
Plural arranjo
de imagens sobrepostas,
reflexo rápido
de neurônios capazes
a mando
de meus singulares desejos
em movimento.
 
 
Sem barreiras de espaço,
sobrevôo Paris neste momento.
Num segundo
estou em Calcutá,
perco-me em Londres,
atiro-me em Sarajevo,
Guanabara que já não há.
 
 
É noite. O vôo é livre.
De novo a paisagem me surpreende.
A viagem possui asas de sonho
invadindo a madrugada.
Entretanto, o destino é o mesmo:
se é minha a partida,
sempre tua é a chegada.

 

Súplica

(Flávio Villa-Lobos)

Dá-me de beber neste cálice mágico:
quero sorver o líquido precioso.
Deixa-me saciar a sede infinita
ante o mistério engenhoso
que nasce do desejo, num átimo
maravilhoso e sucumbe à desdita
do amor impossível, insano.
 
 
Desvenda meus olhos mergulhados
na escuridão de tantos anos.
Faz-me sentir o caos sublime
que habita um coração apaixonado.
Quero reaprender a felicidade,
sentir a calmaria das águas
depois da tempestade.
 
 
Ensina-me o calor de tuas mãos
dentro da noite fria, sem lua.
Acolhe meus braços com ternura,
como se fosse para sempre.
Cuida de mim, simplesmente
como se eu fosse teu...
como se minha vida fosse tua.



 

Vigília

(Flávio Villa-Lobos)

Quando batem as horas noturnas,
antecipando a madrugada silenciosa,
agarro-me a um arsenal de fantasias
- inútil tentativa
de evitar o delírio de pressentir
outra vez
teu perfume de almíscar.
 
 
O relógio vê minha existência esvair-se
lá e cá - uma dança constante -
pêndulo imperturbável,
som de carrilhão
penetrando minhas entranhas,
assustando-me... ledo engano:
penso ouvir tua voz de relance.
 
 
Desfila pelos corredores sombrios
um turbilhão de metáforas antigas,
lugares onde deixei minha paz.
Recorro assim - náugrafo solitário,
às águuas turvas da memória:
a felicidade é feita de momentos raros
que não voltam mais.



 

Infância

(Flávio Villa-Lobos)

Felicidade tão perto, voraz
percepção do novo,
tempo bastante para desperdiçar
o hoje.
Vivas lembranças do ainda
ontem,
o amanhã tão longe.
 
 
Sabor de morango, chuva
no quintal.
Latido de cão,
a rã no bolso da calça
- nada mais natural,
mamãe...
Atiradeira invencível,
pedaços de vidro
espalhados pelo chão.
 
 
O cheiro de hortelã,
pipa no ar.
Caminho de terra,
relva úmida,
a casa da vovó.
Um silêncio estranho,
familiares distantes chegando.
- Papai...o vovô
não quer mais brincar.
 
 
Bola de gude, bola de meia
a correr pela rua,
sempre no rastro
da lua cheia.
 
 
- Menino, já para cama!
O quarto-esconderijo, prendendo
minhas asas de anjo.
 
 
Medo do escuro,
segredos no porão.
Mariazinha não tem medo não...
O primeiro beijo é assim mesmo?
Ah!... nunca mais viver
aquela sensação.
 
 
Liberdade até andar
entre gigantes.
Será que um dia ainda vou?
Natal de muitas
árvores,
presentes tão bons e tantos.
Mamãe chorava
nessas horas...
meu pai escondia o pranto.
 
 
Quando eu crescer, quem sabe?
De repente, estampada no palavrão
- maioridade -
o prenúncio da dor.
Acabou-se o que era doce...
quero voltar, por favor.




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© 2001 Flávio Villa-Lobos